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Passeio Público de Curitiba – Parte 2

Entre a graça e a desgraça

O Passeio Público faz parte da história de Curitiba e da vida dos curitibanos – pelo menos os da velha guarda. Mas saibam que nem sempre ele foi público.

O primeiro administrador, Francisco Fasce Fontana (italiano, ervateiro, empresário, rico…), foi quem que ajudou a viabilizar a sua construção; até por isso na época ele instituiu que algumas das atrações deveriam ser pagas, como, por exemplo, a “elegante máquina de cavalinhos” – um carrossel, que foi sucesso total. Só que Chico (para os íntimos) começou a ficar indignado por ter que tirar do próprio bolso verba para a manutenção do local e ainda ter que apresentar recibos e notas fiscais das obras – que ele mesmo estava bancando – para a administração pública e, como protesto, fechou os portões do parque. A população não gostou: em 1889 invadiu o local e mostrou o significado da palavra “público”.

Ponte pênsil fazendo a ligação com a Ilha da Ilusão. (Foto: Rafael Belli Soares)

Algumas das aves do Passeio Público. A Gralha-Azul (primeira foto – óbvio!), pássaro símbolo do Paraná. Voar neste espacinho não deve ser nada fácil! (Fotos: Rafael Belli Soares)

Esquerda: Ponte de pedra original; direita: busto de Francisco Fasce Fontana. (Fotos: Rafael Belli Soares)

Fato é que o parque caiu na graça do povo, que se reunia nele diariamente; finais de semana então, nem se fala! Apresentações no coreto e canoas para alugar eram um dos atrativos mais procurados. Um dos destaques foi a inauguração, em 1957, do Lá no Pasquale, um bar/restaurante de João de Pasquale, que fez um tremendo sucesso com o passar dos anos. Jornalistas, radialistas, estudantes, personalidades curitibanas prestigiavam o local, que oferecia feijoada, barreado, cervejinha, caipirinha… Aquela coisa toda de sábado!  Na frente, no palco flutuante (onde hoje é um chafariz), aconteciam apresentações musicais.

Ponto de encontro para uma partidinha de xadrez. (Foto: Rafael Belli Soares)

Aquário e terrário. A conservação também não está lá aquelas coisas! (Fotos: Rafael Belli Soares)

Esquerda: Atual chafariz (Foto: Rafael Belli Soares)/ Direita: Antigo palco flutuante em 1973. (Foto retirada do grupo Antigamente em Curitiba, do Facebook – postado por Evandro de Oliveira Pereira)

Em 2013 e 2014 acredito eu que deve ter acontecido um dos últimos grandes eventos no Passeio Público, a Vinada Cultural (pra você que é de fora, em Curitiba vina = salsicha). A Vinada fez parte de uma ação do movimento Ocupe o Passeio Público, do qual meu sogro, o jornalista Dante Mendonça (precisava falar dele para evitar problemas em casa!) foi um dos cabeças. Em 2013 foram reunidas barracas dos dogueiros mais tradicionais da cidade (restaurantes inclusive), que venderam cachorro-quente até acabarem as fichas – a demanda foi tanta que às 15:30h já não tinha o que comer; foram 14 mil lanches vendidos pras cerca de 17 mil pessoas que compareceram! O mais legal: junto com o evento aconteceu uma corrida de pedalinhos (ideia do Dante) da qual eu e a Luiza tivemos o prazer de participar – e ganhar uma das baterias! No dia, nosso instinto competitivo falou mais alto e na reta final fechamos a dupla que iria nos passar – detalhe, era um pai com seu filhinho! Na bateria final, ficamos em terceiro. Quero registrar aqui meus parabéns pra Maria Elisa, de quem ficamos amigos anos depois e descobrimos que foi ela a vencedora da edição de 2014! Coloco dois vídeos que comprovam a história:

Primeira bateria – 2min:45seg (momento da fechada na linha de chegada. Obs.: a imagem passa rápido, é necessário muita atenção!)

Vídeo 2 – Final 14min:29seg (o vídeo não mostra o estado dos gravetos – das minhas pernas – no final. Tremedeira total! Preparo físico em dia, só que não!)

Obs.: de 2015 em diante continuou existindo Vinada Cultural, mas já não mais no Passeio Público, e sem corrida de pedalinhos. Triste.

Mas, voltando pra história: com uma área aproximadamente de 70 mil metros quadrados, deu pra ver que o Passeio Público foi sucesso absoluto! Foi. Já faz um tempo que o local não é tratado com carinho; aliás, por vezes é tratado com uma falta de respeito, antes mesmo do evento de 2013. Nele hoje é possível encontrar o parquinho, equipamentos de academia, ciclovia, a ponte pênsil, uma pequena gruta, mesinhas para jogar xadrez, o aquário, o terrário, várias aves, feira orgânica aos sábados e até um certo movimento… Mas nada muito bem cuidado como já foi. Também está lá o lago: verde, verde, poluído pelas algas; e o bar: fechado, abandonado. Não se surpreenda se avistar pessoas usando/vendendo drogas, prostituição, marginais… Dependendo do dia e do horário, o clima é de insegurança.

Lá no Pasquale funcionou até junho de 1997. (Foto retirada do grupo Antigamente em Curitiba, do Facebook.)

Onda havia diversão, movimento, pedalinhos, barzinho… Hoje tem este cenário deprimente. (Foto: Rafael Belli Soares)

Lago poluído pelas algas, local de consumo de drogas, marginalização, cheiro de urina, prostituição… A Ilha da Ilusão tive que tirar foto de longe, já que haviam pessoas vendendo drogas e me encarando. (Fotos: Rafael Belli Soares)

Não quero apavorar ninguém: dá sim pra visitar o lugar; e tem sim coisas bacanas para ver nele, inclusive para crianças (os bichos), como vocês veem nas fotos, recentes. Mas é certo um lugar com tanto potencial e em localização tão privilegiada merecia mais atenção.

Como já é de praxe, termino o post com uma música. Uma música alto astral (aliás, muito bacana a iniciativa deste grupo que criou o vídeo, mostrando alguns dos pontos marcantes da nossa cidade), pois é assim que devemos ver Curitiba. Fico com a esperança de que este post de alguma forma ajude a voltar os olhos para o Passeio Público, pra quem sabe ele possa um dia voltar a ser esse ponto de encontro familiar, de eventos culturais, de natureza, happy!

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1 Comentário

  • Maria elisa
    02 fevereiro, 2019

    Saudades da corrida!!! Inacreditável depois de anos conhecer vocês!! Vamos marcar a revanche do pedalinho!!!

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